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Problemas com Cavalos em Pastagens de Humidicola
Saladino Gonçalves Nunes | José Marques da Silva | José Antônio Paim Schenk

A Brachiaria humidicola é uma das forrageiras tropicais bastante utilizadas para alimentação de eqüinos de serviço nas áreas de cerrado do Brasil Central onde praticamente se constitui na única opção forrageira além das pastagens nativas.

Trata-se de uma gramínea perene, procedente do continente africano, onde ocorre em áreas relativamente úmidas. Adaptada às condições de clima e solo de cerrado, vegeta bem em regiões de solos fracos e de elevada acidez, propagando-se facilmente por sementes e mudas. Entretanto, a utilização de pastagens dessa espécie para eqüinos, a despeito de suas características agronômicas desejáveis boa aceitação, vem apresentando sérios problemas para a saúde e desempenho desse animais. Via de regra os eqüinos que a utilizam apresentam desenvolvimento retardado, baixo rendimento no trabalho, além de problemas sanitários distúrbios metabólicos. Freqüentemente ocorre intoxicação, manqueira, indisposição, cansaço, emagrecimento, fratura e mesmo morte.

As principais causas desses problemas residem na baixa qualidade da forrageira, especialmente baixo conteúdo protéico e de minerais, elevados teores de fibra e altas concentrações de princípios tóxicos (oxalatos). O déficit protéico na dieta dos animais normalmente interfere no seu desenvolvimento e desempenho.

Em experimento conduzido no Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (CNPGC) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), na tentativa de viabilizar a utilização de pastagem de Brachiaria humidicola para potrancas em crescimento (recém-desmamadas), suplementadas com minerais e concentrados, ocorreram vários casos de fotossensibilização hepatógena e de cara inchada.

A fotossensibilização é decorrente da ingestão constante da toxina do fungo Pithomyces chartarum que prolifera também nessa espécie forrageira, atingindo principalmente os animais despigmentados.

Constitui agravante ao desequilíbrio nutricional dos cavalos, o fato de receberem comumente o mesmo suplemento mineral dos bovinos, quando em criações mistas. Os suplementos minerais formulados para bovinos não são apropriados para eqüinos, devido à elevada concentração de fósforo e ao baixo teor de cálcio.

A suplementação de forrageiras potencialmente tóxicas, nos períodos de escassez, com concentrados (grãos) ricos em fósforo e pobres em cálcio, contribui com o agravamento do desbalanço nutricional dos eqüinos, havendo necessidade de se adequar os níveis de cálcio, às exigências dos animais.

A Tabela 1 mostra que a Brachiarla humidicola, em condições normais de pastejo, apresenta altos níveis de oxalatos e baixos teores de cálcio, sendo considerada forrageira potencialmente tóxica para eqüinos.

Sabe-se que a ingestão, pelos eqüinos, de plantas com altas concentrações de oxalatos traz reflexos negativos sobre o metabolismo do cálcio, podendo provocar distúrbios na formação óssea, as chamadas osteodistrofias, com maiores efeitos em fêmeas gestantes ou em lactação e em animais jovens na fase de crescimento.

Entre as osteodistrofias, a mais notória é a cara inchada (hiperparatireoidismo nutricional secundário), caracterizada por um inchaço bilateral dos ossos da face. Nessa doença a deficiência de cálcio no sangue estimula a glândula paratireóide a produzir um hormônio (paratohormônio) que mobiliza o cálcio dos ossos para o sangue. O cálcio retirado dos ossos é substituído por um tecido cicatricial fibroso, que provoca aumento de volume dos ossos da face. Embora irreversíveis, essas lesões podem ser controladas quando detectadas. A alternativa mais viável para equacionar esse problema, em eqüinos mantidos exclusivamente a pasto, é o fornecimento de misturas minerais apropriadas, desde que sejam consumidas em quantidades adequadas. Quando for necessária a suplementação com concentrados, é imperativo aumentar também a oferta de cálcio na dieta através da adição de fontes de cálcio às rações, por exemplo: Carbonato de cálcio, cloreto de cálcio, fosfato tricálcico, farinha de ostra.

TABELA 1. Conteúdo de cálcio, fósforo, relação cálcio/fósforo, oxalato total e relação cálcio/oxalato na matéria seca das folhas de algumas gramíneas forrageiras consideradas potencialmente tóxicas para eqüinos.

Forrageiras Nome comum Ca

%

P

%

Ca/P Oxalato total Relação CA/Oxalato
Setaria anceps3

cv. Kazungula

Setária 0,27 0,25 1,08 2,80 0,10
Brachiaria humidicola Humidícola 0,41 0,18 2,27 1,80 0,23
Panicum maximum

cv. Colonião

Colonião 0,30 0,14 2,14 2,21 0,13
Brachiaria sp. Tangola 0,34 0,13 2,61 1,55 0,22
Digitaria decumbens

cv. Transvala

Transvala 0,53 0,12 4,42 2,30 0,23
Brachiaria dictyoneura

cv. Llanero

Llanero 0,21 0,17 1,23 1,62 0,13
Pennisetum clandestinum Quicuio 0,36 0,36 1,00 1,30 0,28

1 Oxalato total expresso em ácido oxálico.

2A forrageira é considerada potencialmente tóxica para eqüinos quando o nível de oxalato for superior a 0,5% na matéria seca da planta for inferior a 0,5.

3 Fonte: WALTHALL, J.C. & McKENZIE, R.A. Osteodystrophia fibrosa in horses at pasture in Queensland: field and laboratory observations. Aust.Vet.J.,52(11): 11-6. 1976.

O manejo rotacionado e a utilização diversificada de espécies forrageiras melhor equilibradas nutricionalmente e apropriadas para eqüinos, é outra alternativa importante para minimizar o problema dos desbalanços nutricionais e suas conseqüências.

Pelo acima exposto, conclui-se que a Brachiaria humidicola não é uma boa opção forrageira para eqüinos, devendo ser preterida por outras mais indicadas, com o híbrido 'Coastcross-1' (Cynodon sp.), o pasto Ramirez (Paspalum guenoarum), o capim Rhodes (Chioris gayana), o Pasto Negro (Paspalum plicatulum), Pensacola (Paspalum notatum), entre outros.

A utilização de pastagens de Brachiaria humidicola para cavalos de cria ou serviço, embora não indicada, poderá ser feita com ressalvas, por períodos curtos de pastejo, atentando para os problemas e precauções mencionados. 


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